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Filho do Carbono [entries|archive|friends|userinfo]
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O Albino (ou olhos vermelhos) [Dec. 5th, 2009|06:23 pm]
O albino de olhos vermelhos pegou o trem noturno na estação; era o único modo de se esconder: no escuro, na falta de qualquer luz passível de reflexão. Assim, ele era tão volúvel quanto à lua, e tão teimoso... Os dias cinzas eram a regra, do mesmo modo que o dia de esconder-se e o de mostrar-se: tudo em dependência dos fornecimentos externos e periódicos de luz.

Ao contrário do que possa parecer, estar ligado a tais fontes externas não era de modo algum motivo de desconforto. Também como o Vigilante Noturno, ele não se importava em ser aparentemente o único de seu tipo no céu, nem de ter uma face muito além das crateras de seus olhos que podia ver sol tão mais de perto ao ponto de fazer a luz desaparecer a todos os outros.

Tudo isso queimando-se à realidade como ao fogo. Tudo isso através daqueles olhos de sangue exposto, sem a farsa da visão neutra e vitral.

Matheus Gondim
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Down to the Moon [Dec. 2nd, 2009|06:34 pm]
Down to the moon
to feel its light going upwards
while running away from earth's view.

Or, perhaps,
wait for the earthly phases
just to see it new.

Matheus Gondim
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Ciclo [Dec. 2nd, 2009|06:22 pm]
Do álcool me resta a ressaca
da metafísica, o asco
e de ambos,
o gosto acre e a visão ácida
ajoelhado aqui
ao bojo do mundo

Mas ainda hei beber.

Matheus Gondim
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Ulisses [Nov. 13th, 2009|06:47 pm]
Entre ventos de desfavores
olhos de ciclopes
e pés de tridentes
teve algumas Ítacas momentâneas
algumas penélopes amorosas

e o suspiro de Argos.

Para Ulisses dos olhos verdes... Que descanse em paz dessa viagem.

Matheus Gondim
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Leashes. Cages. Lives. [Oct. 12th, 2009|07:24 pm]
A pet’s life is the one of his owner’s. A man’s life is the one of his society. His job, his family, his personality… His choices. All for coherence’s sake.

A music lover is caged behind musical bars, hung by piano strings. A poet has the verse as the dungeon keeper; the painter’s paint is his blood. And in case there’s no other entrapment, Past is always there to put on the black hood.

And with leashes so tight, a hard breath and a drunken step are the only rights that are left.

Matheus Gondim
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Congestão [Aug. 28th, 2009|08:01 pm]
Pra que escrever mais versos tristes?
...

Se chorar lavasse a alma, eu não sentiria tanta culpa
Se escrever escorresse a dor, palavras não feririam tanto

É melhor apagar essa luz estúpida
que dói no antro dos meus olhos
e dormir sem esperar muito
além de uma congestão nasal

e mental.

Matheus Gondim
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Do Silêncio [Jul. 22nd, 2009|10:29 am]
São quatro
olhos cegos
e duas
línguas afiadas
- embainhadas
e bem abertos -
na escuridão dos seus infernos.

Matheus Gondim
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Yellow [May. 27th, 2009|08:36 pm]
Yellow is sad if seen through a glass of beer
sheer fermenting staleness.

...

There's no red here,
it's been dried away.

There's no green here,
all the leaves have fallen

There's no blue as well,
night's fallen upon the earth.

There's nothing but a liver disease.

Matheus Gondim
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The Humming Bird [Mar. 5th, 2009|10:35 am]
He stared at the humming bird at the feeder: a thousand flaps for a sip. Perhaps this meant a short life, a shelf life and nothing more. But what else was there to be observed? The bird’s beak couldn’t make a sound as it was made to fit its sole purpose; his wings and heart had to do it.

All this effort made him look large and powerful, able to float in mid-air like a flame from the Sun: the shine and chimes of morning. The gazer then decided to take a picture and capture the moment. And now, one look at the paper-frozen moment was enough: it was just another Icarus.

Matheus Gondim
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A Sala de Aula ( ou Laissez Faire, Laissez Passer) [Feb. 15th, 2009|01:36 pm]
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Chegou um pouco atrasado na sala, esgueirando-se entre as pernas das cadeiras e as dos alunos sem qualquer distinção. Tentar imitar os famosos primos distantes ainda era uma brincadeira e, em seus poucos meses de vida, ainda era sobretudo um aprendizado. A indiferença daqueles que lhe cercavam também era indiferente aos seus olhinhos curiosos. Agora, o importante era que tinha o fragmento de algum manifesto amassado em bola de papel para brincar.

Pouco depois chegaram os que se diziam, e eram acreditados ser, do movimento político. Durante o discurso, um dos que distribuíam panfletos percebeu o envolvimento do gatinho com o fragmento e, achando interessante, o trouxe pra perto. A princípio, podia parecer que o pequeno havia encontrado companheiros e até mesmo a perspectiva de uma casa onde morar com refeições certas; mas de que adiantava? A mão do político o afastara da bolinha de papel.

Solto de volta ao chão, descobriu uma caneta e com ela pôde aprender ainda mais. Agora suas patinhas faziam mais barulho e o movimento menos previsível lhe ensinava mais, além de lhe levar mais longe. Logo se encontrou em baixo do birô que, daquele ponto de vista, parecia mais um mausoléu antigo, soterrado e carcomido onde se viam apenas os pés empoeirados da gigantesca estátua.

Aquela movimentação, apesar de aparentemente passar despercebida, causou algum incômodo inconsciente no professor que o levou a chutar o único que aprendia algo naquela aula. Curiosamente, era esse também o único que não tinha vergonha de não entender o sentido do que se dizia ali.

Chutado, foi para uma cadeira como todos os outros. Passou algum tempo lá até lembrar que havia algo do lado de fora. Sentiu um forte desejo de ver e então pulou nas grades da janela: era bonito olhar o jardim dali e ver o horizonte do seu mundo. Não tardou que uma mão, talvez até por medo de que ele caísse e se machucasse, o pegasse e o pusesse na grama molhada pela garoa. Sentiu um pouco de frio e revolta, mas agora, terminada a aula e aprendida a lição, era hora de caçar baratas para matar a fome.

Para Iolanda,
que fez brotar as palavras em mim


Matheus Gondim
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Descanso de Outono [Dec. 5th, 2008|02:12 pm]
Pendiam folhas de cobre
aos pés do aconchego
meu forte, meu apego
um leito de violetas

Matheus Gondim
18/11/2008
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Isso [Nov. 10th, 2008|06:19 pm]
[Tags|]

Sentiu-se como a pata infectada de Gregor Samsa, um traste a ser arrastado traçando um caminho medonho. As fezes escorriam pela boca e o intestino pelo reto, algo que tornava as lágrimas como algo de pouca ou nenhuma importância. O berro desde sempre nojento era agora também um vômito invertido, tal como os olhos convulsos dolorosamente conscientes; os pés imundos eram paralíticos e as mãos eram nada mais que um borrão disforme. Havia por perto uma orelha decepada, sem reparo por mais milagroso que fosse, enquanto por dentro, as costelas mastigavam os pulmões e empalavam o coração que insistia em bater dolorosamente. Não era a morte, não era absurdo, não era uma fábula... Era real.

Esse estado deletério era causa e apenas parte da conseqüência. A autopunição, por mais que existisse, seria sempre insuficiente. Na janela havia o corvo crocitante do nunca mais, e, segurando a vassoura, um anjo mudo encarregado de limpar a imundície que invadira seu próprio quarto.

A carne podre foi atirada (um tratamento até doce) na rua e então escorreu com toda a gravidade da situação. O pôr-do-sol fora enviado para queimá-la por todo o seu caminho, num cheiro de borracha queimada de pneus que arrancavam. Para onde mais poderia ir senão para a própria casa?

Logo quando chegou percebeu que deveria arranjar outro lugar para ir: o que construíra ao seu redor não era digno de sua aparência. Não havia consolo, não havia leito. Era uma verminose solitária numa cela solitária, sem baratas para comer.

Diante de tanta destruição, a memória má persistia. Era ela que trazia o fedor, era ela que o aumentava. E não morreria, nem como estátua na chuva ou carne na guerra; não se apagaria nem se rasgaria; não se reescreveria. Ela revive a si e mata. Não morre.

Mas daquela boca culpada saía pelo menos algo de verdadeiro e bonito: um “eu te amo”. No entanto, provavelmente isso jamais viesse a ser percebido. Talvez fosse melhor assim, pois, de qualquer maneira, já devia ser tarde demais. Mesmo assim, ainda falava e insistia. Depois de tantos erros, não tinha nada além da verdade para se agarrar.

Matheus Gondim
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A Lente [Oct. 24th, 2008|05:53 pm]
Não vejo o que escrevo
não enxergo contornos
é tudo pó.

Do desfoque
ao desfalque
minhas mãos tortas
vão da monstruosidade
ao nada do ofidismo.

Essa lente que pinga dos meus olhos.

Matheus Gondim



A Punição de Lóki
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Memento [Oct. 23rd, 2008|11:29 am]
O pesadelo foi dor
e a dor, pesadelo.
e aquele momento
fúria e medo.

Mas o dia anterior
foi o seu memento:
'amaste
amas
amarás.'

agora bastava pôr no infinitivo.

Matheus Gondim
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O Fio de Cabelo [Oct. 17th, 2008|12:10 pm]
Entre a mão ainda inchada
e a lágrima
havia um fio e cabelo
de um carinho
que não foi beijo

O abraço quente
hoje era febre
e o filme
um drama pós-guerra.

Matheus Gondim
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(Hipo)Crítica [Oct. 11th, 2008|05:36 pm]
Dali, era fácil falar,
que era mais torto
que algo de Dalí.

E (ainda bem!)
seus olhos iam além
do limite do espelho.

Não era mais criança para poder encarar (com) tanta crítica.

Matheus Gondim



De "Um Cachorro Andaluz" (Un Chien Andalou), de Luis Buñuel e Salvador Dalí
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Mudo [Oct. 7th, 2008|10:56 am]
Já mudo, pôs escrito:

'No mundo
se foi de tudo

e aqui
tudo se foi
e não fui tudo'

Matheus Gondim
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Hidrofobia [Oct. 7th, 2008|09:18 am]
Pior que afogar-se em raiva
gritando bolhas desconexas
e outras tonturas disléxicas

é ainda assim
ter sede
e amar o mar carrasco.

Matheus Gondim
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Dos Eufemismos [Oct. 4th, 2008|12:23 pm]
Se a poesia é divina
é também eterna morfina.


Filhos de Cronos morrem com suas epopéias,
os de ninguém se vão no fogo de Pompéia,
e o Deus-Verme
há de devorar o próprio criador!

Pois esses versos,
por mais lindos que sejam, trazem dor

em traços de Kali-grafia.

Matheus Gondim



Deusa Kali (Hinduismo)
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Um Calvário [Oct. 2nd, 2008|10:43 am]
Diante da agonia
entre ferro e madeira
havia as lágrimas de uma mãe
e a pressa de uma ponta fria
para que pudessem logo dormir.

Após o fim
do fim de tudo,
limparam a ratoeira.

Matheus Gondim
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